Meu filho não fala — quando se preocupar de verdade
Revisado por Dr. Vitor Chiesa Peixoto — CRM-RJ 52-0107630-2 · Atualizado em 8 de agosto de 2026
São 23h e você está com o celular na mão, procurando isso pela terceira vez esta semana. Ele tem dois anos e meio. Fala umas cinco palavras, e mesmo assim só você entende. A sogra diz que menino demora. A vizinha diz que o filho dela falou aos três e hoje não cala a boca. Seu pediatra disse pra esperar mais um pouco.
E você continua com aquela sensação que não passa.
Este texto não vai dizer que está tudo bem nem que está tudo errado. Vai explicar o que se sabe hoje, para você tomar uma decisão com informação em vez de com medo.
A fala atrasada, sozinha, não diz muita coisa
Crianças aprendem a falar em ritmos diferentes, e isso é verdade. Existe atraso simples de fala que se resolve. Existe perda auditiva que ninguém percebeu. Existe criança que fala tarde e depois desenrola sem nenhuma dificuldade.
O problema é que "esperar mais um pouco" virou resposta automática — e ela custa caro quando a fala tardia é sinal de outra coisa.
O que muda o quadro não é a fala isolada. É a fala junto com outros sinais.
Os sinais que pesam mais que a fala
A Sociedade Brasileira de Pediatria descreve o Transtorno do Espectro Autista a partir de dificuldades de comunicação e interação social somadas à presença de comportamentos ou interesses repetitivos e restritos. Repare: comunicação não é a mesma coisa que fala.
Uma criança pode não falar e se comunicar bem — aponta, puxa você pela mão, olha nos seus olhos, mostra o que quer. Outra pode falar frases inteiras e não se comunicar — repete falas de desenho, não responde ao próprio nome, não busca você para dividir uma descoberta.
É a segunda situação que merece mais atenção, não a primeira.
Sinais que, somados à fala tardia, justificam avaliação:
- Não responde quando você chama pelo nome, mas ouve bem outros sons
- Não aponta para mostrar coisas que acha interessantes
- Não olha na direção para onde você aponta
- Repete falas de desenho ou propaganda, fora de contexto
- Não brinca de faz de conta
- Se descontrola quando a rotina muda sem aviso
- Balança o corpo, bate as mãos ou faz movimentos repetitivos com os dedos
- Come pouquíssimos alimentos e recusa texturas novas
Nenhum item isolado significa alguma coisa. O conjunto significa.
Quando os sinais costumam aparecer
Segundo a SBP, o transtorno se origina nos primeiros anos de vida, mas sua trajetória não é uniforme: algumas crianças apresentam sintomas logo após o nascimento, e na maioria dos casos eles só são identificados de forma consistente entre os 12 e os 24 meses.
Ou seja: se seu filho tem entre 1 e 2 anos e você está desconfiando, você não está adiantada demais. Está exatamente na janela em que os sinais costumam ficar visíveis.
Existe um teste, e ele é seu por direito
A Lei nº 13.438, de 2017, tornou obrigatória a aplicação de um instrumento de detecção de risco para o desenvolvimento psíquico em todas as crianças, nos primeiros dezoito meses de vida, durante consulta pediátrica de acompanhamento. O instrumento adotado é o M-CHAT-R, incluído em 2021 na 3ª edição da Caderneta da Criança.
E em setembro de 2025 isso foi ampliado: o Ministério da Saúde lançou uma nova Linha de Cuidado para o TEA orientando que profissionais da atenção primária apliquem o teste em todas as crianças entre 16 e 30 meses, como parte da rotina de avaliação do desenvolvimento.
Traduzindo: você pode pedir o M-CHAT-R na consulta do seu filho. É um questionário curto, respondido por você, e não custa nada.
Mas atenção a um ponto importante. O Ministério da Saúde reforça que o M-CHAT é instrumento de rastreio, não exame diagnóstico. Por ser triagem, pode gerar falso-positivo. Resultado positivo não significa que a criança tenha TEA — indica que ela deve ser acompanhada mais de perto e, se necessário, encaminhada para avaliação especializada.
Resultado alterado não é diagnóstico. É motivo para investigar.
Você não precisa do diagnóstico para começar
Essa é a mudança mais importante da nova Linha de Cuidado, e quase ninguém sabe. A orientação do Ministério é que as intervenções e estímulos aconteçam antes mesmo do diagnóstico ser fechado.
Faz sentido. Uma criança de dois anos com atraso de fala se beneficia de fonoaudiologia independentemente de o diagnóstico final ser autismo, atraso simples de linguagem ou outra coisa. Esperar meses por um laudo para só então começar é perder tempo que não volta.
O que fazer na segunda-feira
- Marque consulta com o pediatra e peça o M-CHAT-R. Se ele disser que não é necessário, você pode mencionar a Lei 13.438/2017 e a Linha de Cuidado do Ministério da Saúde.
- Faça uma avaliação auditiva. Perda auditiva não diagnosticada é causa frequente de fala tardia e às vezes passa despercebida.
- Anote o que você observa. Por uma semana, anote as situações concretas: como ele pede água, se olha quando você chama, o que come. Isso vale mais numa avaliação do que qualquer coisa que você tente lembrar na hora.
- Se os sinais persistirem, busque avaliação especializada. Pode ser pelo SUS, pelo convênio ou particular.
Uma última coisa
Procurar avaliação não é rotular seu filho. É entender como ele funciona.
Se não for nada, você vai dormir melhor. Se for alguma coisa, você começou cedo — e começar cedo importa. A própria SBP registra que, embora não haja cura, a intervenção precoce pode alterar o prognóstico e suavizar os sintomas.
Nenhuma dessas duas possibilidades é motivo para esperar.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria — Manual de Orientação: Transtorno do Espectro do Autismo
- Lei nº 13.438, de 26 de abril de 2017
- Ministério da Saúde — Linha de Cuidado para o Transtorno do Espectro Autista (2025)
- Caderneta da Criança, 3ª edição — Ministério da Saúde
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui consulta médica ou avaliação especializada.
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